21/09/24
O coach goiano Pablo Marçal, conhecido por suas campanhas de arrecadação de doações, levantou mais de R$ 4 milhões para a construção de moradias no povoado de Camizungo, Angola. No entanto, conforme apurado pelo Intercept Brasil, esse dinheiro foi destinado a duas ONGs sediadas em Prata, uma pequena cidade no interior da Paraíba com apenas 4 mil habitantes. A investigação revelou que uma das organizações beneficiadas, a ONG Centro Vida Nordeste, está em nome de José Leandro Ferreira, conhecido como Zé da Banca, proprietário de uma casa de apostas ilegais.
Nenhum morador da cidade tem conhecimento pessoal de Pablo Marçal, o que levantou ainda mais suspeitas sobre o destino dos fundos arrecadados. A ONG Atos, outra beneficiada, também chamou a atenção por, até pouco tempo, sequer possuir uma sede física.
Segundo o pastor Itamar Vieira, responsável pelo projeto em Angola e amigo de Marçal, a parceria foi estabelecida com a ONG Atos e seu “braço” paraibano, a Centro Vida Nordeste, para a transferência de recursos. Itamar confirmou que a sede da Atos foi improvisada às pressas após a primeira reportagem do Intercept. Em visita ao local, a equipe encontrou um escritório recém-pintado, sem mobília e com pouca estrutura operacional.
O escândalo envolvendo os nomes de Zé da Banca e sua esposa, Milene Lima Sousa, que figuram como representantes legais das ONGs, gerou grande repercussão em Prata. “Estou há uma semana sem dormir”, desabafou Zé da Banca, negando ser um "laranja" e afirmando que assumiu a presidência da ONG por conhecer seus projetos.
A história se complica quando se examina o histórico das ONGs e seus fundadores. João Pedro Salvador de Lima, ex-prefeito de Prata, também envolvido na administração da ONG, já foi condenado por improbidade administrativa. Além disso, a Centro Vida Nordeste já esteve no centro de investigações sobre desvio de verbas públicas.
A investigação revelou que, dos milhões arrecadados por Marçal, apenas uma fração chegou a Angola. Em 2024, dos R$ 3 milhões anunciados, apenas R$ 600 mil foram efetivamente transferidos, gerando questionamentos sobre a transparência das operações. O coach, por sua vez, preferiu não comentar as revelações.
Enquanto isso, a população de Prata continua perplexa com o envolvimento da cidade no esquema. "Todo mundo aqui está indignado", disse uma moradora, refletindo o sentimento local diante de um escândalo que mistura política, doações internacionais e negócios ilegais.