26/10/24
A Polícia Federal encontrou um documento peculiar durante a investigação da Operação Discalculia, deflagrada na manhã desta sexta-feira, 25. A PF revelou que a composição societária de uma empresa supostamente envolvida em esquema de desvio de verbas parlamentares liderado pelo deputado Gustavo Gayer (PL-GO) incluía assinaturas de crianças e, curiosamente, até de um bebê de apenas um ano. A ata, datada de 2003, cita um presidente de 8 anos, um tesoureiro de 6 e uma bebê secretária, levantando fortes indícios de falsificação documental.
Gayer, que apoia o candidato à Prefeitura de Goiânia Fred Rodrigues, sugeriu que a operação teria motivações políticas. “(As buscas) visam claramente prejudicar meu candidato. Vieram na minha casa, levaram meu celular, meu HD. Essa democracia relativa está custando caro”, publicou o deputado nas redes sociais, criticando o momento da operação, que ocorre a apenas dois dias do segundo turno das eleições.
A operação também encontrou R$ 72 mil em espécie na residência de um assessor de Gayer. Segundo a investigação, a empresa em questão, originalmente a Associação Comercial das Micro e Pequenas Empresas de Cidade Ocidental, teria sido “comprada” por Gayer por R$ 6 mil e reativada em 2023, vinte anos após a última movimentação. A entidade teria sido renomeada para Instituto de Desenvolvimento e Investimento Socioeducacional, e a intenção seria qualificá-la como uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) para obter verbas de emendas parlamentares.
Além das assinaturas incomuns, o histórico da empresa chamou atenção pela sequência de solicitações de registro em cartórios diferentes, sugerindo tentativa de validar documentos falsificados. “O escopo era criar um ambiente voltado para a administração total dos recursos, sem amparo legal, e especialmente para o pagamento de pessoal”, apontou a PF.
Em diálogos interceptados entre João Paulo de Sousa Cavalcante, assessor de Gayer, e uma investigada, Cavalcante menciona “a necessidade de organizar a associação devido a demandas de emendas parlamentares e pressão de alguns pastores”. A PF considera esses diálogos como indício do propósito de “adquirir” uma associação para receber verbas públicas, mas com foco em vantagens pessoais e desvios, sem uma real finalidade social.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, autorizou o avanço da operação para colher mais provas sobre a possível tentativa de qualificar a associação como Oscip e receber recursos via emendas. A PF, contudo, ainda não identificou se a associação chegou a ser qualificada e se realmente recebeu recursos públicos, mas a investigação segue com o intuito de “esclarecer o destino de verbas desviadas e seus beneficiários”, afirmou o órgão.