Goiânia, 04/04/2025
Voz de Goiás
·
Contato: vozgoias@gmail.com
Matérias


Delação de Mauro Cid menciona Michelle e expõe planos golpistas atribuídos a Bolsonaro

26/01/25

O depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), trouxe à tona informações que mudaram os rumos das investigações sobre o período pós-eleitoral de 2022. Em agosto de 2023, Cid revelou à Polícia Federal supostos planos discutidos por aliados do ex-presidente para reverter o resultado das urnas, citando nomes como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Conforme detalhado em informações divulgadas pelo colunista Elio Gaspari, a delação apontou que Bolsonaro trabalhava com duas possibilidades: encontrar provas de fraudes nas urnas ou convencer as Forças Armadas a apoiar um golpe de Estado. As declarações também destacaram as divisões internas entre os aliados do ex-presidente, envolvendo desde posições moderadas até grupos com posturas mais radicais.

De acordo com o depoimento, três grupos distintos atuavam ao redor de Bolsonaro após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições.

O primeiro grupo, considerado moderado, defendia que Bolsonaro deveria aceitar a derrota e se posicionar como líder da oposição. Entre seus integrantes estavam o senador Flávio Bolsonaro, o então chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, e o comandante da Força Aérea, brigadeiro Baptista Júnior. A estratégia era preservar o legado político de Bolsonaro e preparar terreno para as próximas eleições.

Já o segundo bloco, também cauteloso, apontava a inviabilidade de reverter o resultado eleitoral. Composto por militares de alto escalão, como os generais Freire Gomes, Paulo Sérgio Nogueira e Júlio César de Arruda, esse grupo alertava para os riscos de aderir a medidas extremas, temendo consequências graves, como o retorno de um regime militar. Foi desse grupo que partiu a sugestão para que Bolsonaro deixasse o país – o que aconteceu em dezembro de 2022, com apoio financeiro de empresários como Paulo Junqueira, que bancou sua viagem aos Estados Unidos.

O terceiro grupo, por sua vez, era o mais radical e estava dividido em dois subgrupos. Um deles tentava, sem sucesso, reunir provas de fraudes nas eleições, liderado por figuras como o senador Carlos Heinze e o major da reserva Angelo Denicoli. Já o outro subgrupo defendia ações mais contundentes, como o uso da força para anular o pleito.

Na ala mais extremista, destacaram-se os nomes de Michelle Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, apontados por Mauro Cid como participantes ativos das conversas com o ex-presidente. Segundo o depoimento, ambos "conversavam constantemente com o ex-presidente, instigando-o para dar um golpe de Estado".

Michelle, que até então mantinha uma postura discreta no cenário político, negou categoricamente as acusações, classificando-as como "absurdas e sem qualquer amparo na verdade". Eduardo Bolsonaro também rejeitou as declarações de Cid, chamando-as de "fantasia". Ambos não foram indiciados no relatório da Polícia Federal, divulgado mais de um ano após o depoimento inicial.

As investigações resultaram no indiciamento de Jair Bolsonaro e outras 39 pessoas, mas Michelle e Eduardo ficaram fora da lista de denunciados. O relatório final da PF apontou Michelle apenas de forma tangencial, enquanto Eduardo foi mencionado em contatos telefônicos de outros investigados.

Por outro lado, aliados próximos ao ex-presidente, como Valdemar Costa Neto, presidente do PL, foram indiciados por suas tentativas de justificar questionamentos eleitorais, mesmo cientes da ausência de fraudes nas urnas. Outros nomes, como Felipe Martins e Mario Fernandes, também figuraram entre os acusados.

As revelações expõem as tensões e divisões internas do bolsonarismo, oscilando entre posições moderadas e iniciativas extremistas. Embora as intenções golpistas tenham se mostrado desorganizadas, as declarações de Mauro Cid reforçam o impacto das ideias radicais no entorno de Bolsonaro.

Com a inelegibilidade do ex-presidente até 2030, o núcleo bolsonarista enfrenta incertezas sobre sua liderança futura. Nesse cenário, Michelle Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro despontam como potenciais candidatos às eleições presidenciais de 2026.


·

2025. Voz de Goiás. Direitos reservados.